SOBRE A FORMAÇÃO EM ENGENHARIA E O CERIMONIAL ACADÊMICO

H.M. de Oliveira,

Universidade é local de elite, única e exclusivamente intelectual. A notar que o termo primitivamente empregado para os estudos superiores era o studium previlegiatum, sendo a denominação universidade surgida em 1208, em documento do Papa Inocêncio III, dirigido ao studium generale parisiensium, onde se fala de universitas magistrorum. Entre 1200 e 1400, constituíram-se na Europa, as primeiras 50 universidades. A engenharia surgiu no contexto militar com o avanço das aplicações em balística e máquinas de guerra. O surgimento de aplicações não-militares originou a Engenharia Civil, a alma mater das engenharias. Nas universidades, ela só aparece com o primeiro estabelecimento dedicado ao ensino de Engenharia: l’Ecole Nationale de Ponts et Chaussées, criada em Paris, 14 février 1747. No Brasil, a cronologia passa pelas seguintes instituições: Real Academia Militar do RJ, 1875; Escola de Minas de Ouro Preto, 1876; Escola Politécnica da USP, 1894 e Escola de Engenharia de Pernambuco,1895, Lei estadual n.84, Junho de 1895 (a notar que a lei n.75 do mesmo ano institui o escudo de Pernambuco...). Uma das questões pertinentes é o uso indiscriminado do termo bacharel no contexto de formação superior. Este termo, bacharel (do latim baccalarem), referia-se a um jovem herdeiro de posses ou aspirante a cavaleiro de ordem religiosa. Cursos de teologia e direito o tinham como requisito para ingresso. Se foi natural a migração deste no jargão universitário, como opinião pessoal, considero este termo mais bem adequado aos cursos de natureza não tecnológica: o termo Bacharel em Engenharia usado aqui e acolá soa um tanto esquisito, deixemo-lo: afinal, engenheiro basta. Aqui na UFPE, o cerimonial acadêmico adota, como chefe do protocolo, o modelo clássico de Universidades Lusófonas, nos moldes daquele da Universidade de Coimbra (1248). Nas cerimônias usa-se o hábito talar: capa e batina, mas com a batina fechada no pescoço, e com a capa caída. A adição de um barrete inspirado na velha tradição dos barretes eclesiásticos como a borla coimbrã, completou o traje. Em cerimônias solenes, usam-se sobre o hábito talar as insígnias doutorais, as bem conhecidas borla e capelo. Aos universitários que ignoram o gaudeamus igitur, formulo um convite a uma descoberta de aprazível ar acadêmico [1, 2, 3]. A preocupação com a pauta do momento (termos-chave da época, e.g. ecologia, digital, cidadania, inclusão, diversidade, sustentabilidade, inovação) conduz a adequações as vezes exageradas. Um exemplo que cito são os deliciosos sanduíches digitais... Não se trata de julgar tais conceitos ou arguir-lhes contrariamente. Apenas menciono seu frequente uso forçado no intuito de agregar valor. É como terminar qualquer discurso técnico com a frase: vão em paz e que deus os abençoe (sob aplausos). Isso é um arremate que agrada a multidão habituada aos sermões religiosos e nada possui de acadêmico. Hodiernamente, há uma considerável fração de documentos com a palavra sustentável ou inovação, frequentemente desnecessário ou não cabível. Trata-se do uso de modismos, uma das estratégias nas tentativas de influenciar as ações das pessoas. Entre tais mecanismos, vale citar: big lie, transferência (a mais usada!), ad nauseum ad infinitum, bandwagon (modismos), argumentum ad populum, de generalitate, clichês, minarum est, inridere. Convido-vos a  manterem-se en guard com estas táticas. Estas influencias indiretas aparecem com força em diferentes contextos. Um exemplo é nos juramentos proferidos nas cerimonias de colação de grau. A título ilustrativo, juramentos podem ser acessados algures e em: juramento I juramento II juramento III juramento IV juramentoV. Um ponto crucial no desenvolvimento do estado e coisa pública, foi a separação da igreja e estado. É claro que mesmo com avanços, isso permanece mal compreendido para muitas pessoas. O caso das ciências padece de viéses similares... Acredito que caberia uma discussão sobre seu teor, e seria bem-vinda a adoção de um texto clean e laico, isento de influencia de modismos, e sem reflexos de tecnofobia. Aos formandos, um convite à reflexão...

NB: (2018) o juramento do CCEN, por contribuição do prof R. Cintra, é EXEMPLAR!