Cœmeterium de vasorum
Ludus Ivum
(vulgata: helium olivam)

Ibi, naves abscondere mori.

in obscura vacua mures reliquum
expectans resurrectionem esse.

Mundi et gloriam, nihil
Minium quod in labiis tuis.

Ventus Inter Aquilonem et corradit
omni litteras qui puerorum nomina.

Nocte canis lambit
et chordæ pannosi

in fuga exultantis mergulos,
in ipso calore coitus, imo sinus colligere solebant.

Repurgari torpentes aqua et lignum putridum,
die illo dissimulare, hamum vorat

cicatricibus notatæ canas alveus
et esset gressus in universo.

Et vespere et onerati estis et stellarum,
innitente super Cameram ubi prius

amor carnalis a iugo attonitum
in vallum nigrum nocte tacere.

O naves perdidit, O vetus surdos
quibus insopitus, ut sibilabit suis audire

pertingens ad caliginem in qua naves ex portu
Erant sicut oves in tenebris!


Cemitério dos Navios
Ledo Ivo

Aqui os navios se escondem para morrer.

Nos porões vazios, só ficaram os ratos
à espera da impossível ressurreição.

E do esplendor do mundo sequer restou
o zarcão nos beiços do tempo.

O vento raspa as letras
dos nomes que os meninos soletravam.

A noite canina lambe
as cordoalhas esfarinhadas

sob o vôo das gaivotas estridentes
que, no cio, se ajuntam no fundo da baía.

Clareando madeiras podres e águas estagnadas,
o dia, com o seu olho cego, devora o gancho

que marca no casco as cicatrizes
do portaló que era um degrau do universo.

E a tarde prenhe de estrelas
inclina-se sobre a cabine onde, antigamente,

um casal aturdido pelo amor mais carnal
erguia no silêncio negras paliçadas.

Ó navios perdidos, velhos surdos
que, dormitando, escutam os seus próprios apitos

varando a neblina, no porto onde os barcos
eram como um rebanho atravessando a treva!