Vox quia scidit intra nos.
Nuno Iudice
in "Meditationes in Ruinas"
(vulgata: helium olivam)


Ubi ex ea -
vocem qui scidit nos intus,
qui autumnus pluvia in nigra,
quis per nubila fugit et
vexata herbis?

Hic - hic in nobis
sicut semper fuisses hic;
et non audierunt,
ut dicas nobis, si non semper,
hic, infra nos.

Et hanc vocem nos audire,
quod si aliquando cognovissent, ubi est?
Vox choris hieme, noctu
sine lucem, echo non, dum autem tenens manum
prospectu tenebris habet.

Ait: "Flere ne quod posterum expectet,
Non descendet, ad ultimum fluvium *
inspira breviter odor resinæ
in silvis et umido spiritu versuum. "

Si nos audivimus vocem.

*[N.B. Acherontis flumina et Styga]


A Voz que Nos Rasgou por Dentro
Nuno Júdice
[Meditação sobre Ruínas]

De onde vem - a voz que
nos rasgou por dentro, que
trouxe consigo a chuva negra
do outono, que fugiu por
entre névoas e campos
devorados pela erva?

Esteve aqui - aqui dentro
de nós, como se sempre aqui
tivesse estado; e não a
ouvimos, como se não nos
falasse desde sempre,
aqui, dentro de nós.

E agora que a queremos ouvir,
como se a tivéssemos re-
conhecido outrora, onde está? A voz
que dança de noite, no inverno,
sem luz nem eco, enquanto
segura pela mão o fio
obscuro do horizonte.

Diz: "Não chores o que te espera,
nem desças já pela margem
do rio derradeiro. Respira,
numa breve inspiração, o cheiro
da resina, nos bosques, e
o sopro húmido dos versos."

Como se a ouvíssemos.