Tertius meditationum, ad lyrici funem (XIXLXVIII)
Ivanum Iunqueiram

(helium magellanicum olivam. Difficile congrua congruis referendo...)

Sitque corporis tuo in terram corruet
et audite vocem radices tenebris,
antiqui bitumine, et denique pulveris metallum,
etiam finita, sed adhuc spirans.

Quod factum est (non modo in cinereo et tenebris
colorem sunt ad blasphemandum viventem)
vivacior est quam concordia
ex facies depravantium se musica.

quia magis vivit tumultu sine
ex tempore, audibilis fit in tempore,
delebit oblivio tuum et antiqua charta music,
composito ad psalterium et cithara
rutilo micat illa quies inani sono,
alcyoneum campanis, nusquam music,
intima et audisti.

Quod factum est (cicatrice orta est),
dolore dolet quod is nunquam in superficiem,
parem martyrii
resina ferventem solis dolorem
cum sub pulverem rimas
idque tanto et fugaces doluissent,
plus quam dolor, vel habuerit cicatricem,
aliud est mors aperto vulnere
palpebris clausis ad quæ quondam fuerunt,
Florentibus spicis densissima ignei,
pœna solstitium
habet cognitionem doloris
agnoscens puer memorias
requiem venit nox in hortum
de nugas ludos, et vocalium rumpitur.

Et hoc modo: hic fluxus voces sper,
in reditu ex te et ad flumina,
quia in tempore non quiescit:
in quo est omne principium in fine,
finis, et ad originem,
unde et motus mutatio
sparguntur in vigilia alchimia modulis
quæ est tantum lympha vel ænigma,
qui redit in cæno viam,
et tunc coram vobis assurgere voluerit,
et paululum etiam spirans, stare in vobis
quod eris; quod autem vivit,
nunc et semper et ante omnia.

Cui ceciderit corpus tuum tu et consueuerint,
humus, terræ -- utero et in congerie mortuorum vigilabit.


TRÊS MEDITAÇÕES NA CORDA LÍRICA - I (1968)
Ivan Junqueira

Only through time time is conquered
T. S. Eliot, Four Quartets, Burnt Norton, 92
[adaptação muito árdua!]

Deixa tombar teu corpo sobre a terra
e escuta a voz escura das raízes,
do limo primitivo, da limalha
fina do que é findo e ainda respira.

O que passou (não tanto a treva e a cinza
que os mortos vestem para rir dos vivos)
mais vivo está que toda essa harmonia
de claves e colcheias retorcidas,
mais vivo está porque o escutas limpo,
fora do tempo, mas no tempo audível
de teu olvido, partitura antiga,
para alaúde e lira escrita, timbre
que vibra sem alívio no vazio,
coral de sinos, música de si
mesma esquecida, aquém e além ouvida.
O que passou (à tona, cicatriz)
é dor que nunca dói na superfície,
ao nível do martírio, mas na fibra
da dor que só destila sua resina
quando escondida sob o pó das frinchas
e que, doída assim tão funda e esquiva,
é mais que dor ou cicatriz: estigma
aberto pela morte de outras vidas
nas pálpebras cerradas do existido,
espessa floração de espinhos ígneos,
solstício do suplício, dor a pino
de te saberes resto de um menino
que anoiteceu contigo num jardim
entre brinquedos e vogais partidas.

E tudo é apenas isso, esse fluir
de vozes quebradiças, ida e vinda
de ti por tuas veias e teus rios,
onde o tempo não cessa, onde o princípio
de tudo está no fim, e o fim na origem,
onde mudança e movimento filtram
sua alquimia de vigília e ritmo,
onde és apenas linfa e labirinto,
caminho que retorna ao limo, à fina
limalha do que é findo e ainda respira
para depois, o mesmo, erguer-se a ti,
ao que serás, porque estás vivo aqui,
agora e sempre, antes e após de tudo.

Deixa tombar teu corpo e te acostuma,
húmus, à terra — útero e sepulcro.